Guia de Bairros: Santiago além do óbvio

Para quem foge dos convencionais “pacotes turísticos prontos”, desbravar as cidades indo além dos cartões postais é um modo de conectar-se com mais sinceridade com a vida e a cultura dos locais visitados. Na série “Guia de Bairros”, o Petri apresenta estes lugares que raramente aparecem em guias convencionais; nesta primeira experiência, te convidamos a conhecer os 5 bairros e regiões mais encantadores da capital chilena, Santiago

Região metropolitana de Santiago com o Valle Nevado ao fundo, um símbolo da cidade - Arquivo do Petri | Fábio Becker


"Cada loco con su tema... Pero, puesto a escoger, soy partidario de las voces de la calle más que del diccionario, me privan más los barrios que el centro de la ciudad". Assim como discorre o espanhol Joan Manuel Serrat, em um dos seus maiores sucessos, ao visitar uma cidade, a maioria dos turistas prende-se às regiões centrais por desconhecimento, ou mesmo por segurança. No entanto, tal como aponta o cantor, há um encanto em desfrutar a calma, as vozes e a imersão cultural que somente as ruas e as vielas dos mais distantes bairros podem proporcionar.
Muito além das facilidades e dos pontos turísticos encontrados nas áreas centrais, muitas vezes, reflexo de nossa realidade, acreditamos que os bairros são todos iguais e sem atrativos. Na brilhante e sufocante introdução do filme argentino Medianeras, Martín, o protagonista,  apresenta sua percepção de uma Buenos Aires que cresce irregularmente, sem nenhum plano ou direção, tornando-se apenas um amontoado de concreto de costas ao Rio de La Plata. "Se erguem centenas e centenas de edifícios sem nenhum critério: ao lado de um muito alto, há um muito baixo; ao lado de um racionalista há um irracional; ao lado de um estilo francês, há outro sem nenhum estilo." Ao final, Martín conclui sua analogia expondo que essa confusão não é somente estética, mas também "ética", um  reflexo do homem e da vida moderna.  
Com está percepção, fugir do caos metropolitano e desbravar a história contada pelas ruas e bairros de cidades, que ainda mantém uma identidade arquitetônica e cultural, é uma forma diferente e, sobretudo, mais intensa de compreender um povo e ir além do mero turismo,  absorvendo a essência do que é viver ali. É dessa forma, que o Petri te convida a conhecer Santiago: pelos olhos de quem vive a cidade, respirando o ar dos bairros, suas cores, suas histórias, vozes e músicas, encantando-se com detalhes que passam longe do conhecimento dos turistas, e às vezes, até mesmo da população local.

Bairro Yungay

Calçamento, postes de ferro, flores e arquitetura antiga: a rua Hurtado Rodríguez é um resumo do que é o Yungay - Arquivo do Petri | Fábio Becker
Como toda a lista pessoal, começo com meu favorito. Ademais, creio que nenhum outro bairro possa ilustrar melhor o significado desse sentimento de "vida de bairro" do que o Yungay. Fundado em 1839, recebe o título de primeiro bairro da cidade e preserva até hoje essa identidade: vizinhança tranquila, gente que cumprimenta, música que vem das janelas e cortiços, pessoas nas varandas, mercadinhos de esquina, "bottileria" (pequenos armazéns onde se vendem bebidas), feiras, árvores floridas. Além disso, Yungay conta com uma elegância ímpar, fruto de uma arquitetura centenária e patrimonial: ruas de pedra, postes de ferro, casas ornamentadas e coloridas de dois, três e quatro pisos, grudadinhas umas nas outras. Os grafites nas paredes e os bares culturais, acrescentam ainda um toque artístico e boêmio complementando o charme único deste local histórico.

Petri recomenda

- Feria de la Calle Esperanza: as manhãs de domingo são a melhor oportunidade de vivenciar a rotina local, junto aos moradores do bairro. Barracas de frutas e verduras, inúmeros vendedores locais, brechós e sebos, tomam os dois lados da Calle Esperanza e se espalham pelas ruas subjacentes, oferecendo roupas, livros,  petiscos e bebidas típicas;


- Cueca na Plaza Yungay: nas terças à noite, a "Plaza Yungay" torna-se palco livre de encontro e tradição para os moradores do bairro. A praça é tomada por músicos e as rodas de dança vão surgindo naturalmente. É o local e o momento ideal para conhecer uma das tradições culturais chilenas: a "cueca", um estilo musical e de dança únicos do país, assim como o nosso samba;

- Fiesta de la primavera: vocação cultural e comunitária, são elementos típicos do bairro e que se refletem na "Fiesta de la Primavera", festival popular e de rua, organizado pelos próprios moradores, e que como diz o nome é uma celebração da chegada da estação das flores. Imperdível para quem estiver em Santiago nos meses de setembro e outubro;

- Museu de la memoria y de los derechos humanos: aos amantes da história e da sociologia, esse é um passeio indispensável. Mas esteja preparado, percorrer o espaço com a calma necessária leva horas e te deixará em choque mais de uma vez. Em cada um de seus andares, o museu conta com relatos, objetos, vídeos e documentos, que de forma cronológica contam um dos trechos mais assustadores e tristes da história latino americana: o golpe e os truculentos anos de ditadura militar chilena.

Bairros Patronato, Recoleta e arredores

Não conheço outro lugar no mundo, onde a multiculturalidade seja tão marcante. Localizados ao norte do Rio Mapocho, fazem parte de uma região proletária e comercial, que hoje mais que estabelecimentos chilenos, conta com mercados e restaurantes peruanos, chineses, colombianos, árabes, japoneses... É onde vive e trabalha a maioria dos imigrantes, que mantiveram vivas, mesmo longe de casa, suas culturas e seus costumes. Caminhar por suas ruas é como viajar por diversos países em um só dia.

Petri recomenda

- La Vega Central: uma feira permanente com temperos e ingredientes de todo o mundo. Espaço ideal para conhecer a multiculturalidade da população local e ainda encher a dispensa, caso sua estadia em Santiago seja longa;

- Mercado Central de Chile: o quinto maior mercado público do mundo, de acordo com a National Geographic, é semelhante à La Vega: um espaço gastronômico barato e multicultural. No entanto, ao contrário da anterior,  é um lugar especial para quem prefere desfrutar pratos locais  e internacionais feitos pelas mãos dos nativos, em vez de cozinhar;

- La Piojera: o mais chileno dos bares. O curioso nome é uma "homenagem" a Artura Alessandro Palma, então presidente chileno, que em 1922 foi convidado pelo diretor de Polícia de Investigações, para conhecer um lugar onde o povo gostava de comer e beber. Ao ver a simplicidade e aspecto paupérrimo do bar e de seus frequentadores - fundamentalmente trabalhadores da região -, Palma exclamou sem pensar: " “¡¿Y a esta piojera me trajeron?!". Passados quase 100 anos desde essa visita, o bar segue um reflexo vivo daquele mesmo local que espantou o presidente: culinária típica, música ambiente, pessoas animadas e obviamente, muita bebida. Ponto extra para a experiência de provar o Terremoto, a mais típica bebida chilena, no mais típico dos bares.  O que é terremoto? Bem, digamos que o nome já diz tudo.


Bairro Bella Vista

Vista do entardecer de Santiago no Cerro San Cristóbal - Arquivo do Petri | Fábio Becker
Aos amantes de festas e vida noturna, Bella Vista é um sonho. Bairro de gente jovem e agitada, o local ganha vida à noite. Com bares e restaurantes de todos os tipos é garantia de diversão de segunda a segunda.

Petri recomenda

- Cerro San Cristóbal: se à noite Bella Vista é um bairro para jovens e para festas, de dia o Cerro San Cristóbal é um dos espaços verdes mais frequentados por pessoas de todas as idades. Ponto turístico da capital chilena, o enorme parque conta com trilhas, zoológico, bondinho, teleférico, e claro: uma das melhores vistas de Santiago. Parada obrigatória para todos os tipos de viajantes.

- Pátio Bella Vista: seja pelos permanentes restaurantes típicos - não tão baratos - e lojinhas de artesanato e lembranças, ou pelos eventos sazonais, é um espaço para visitar despretensiosamente. Às vezes, se dá a sorte de estar ocorrendo algum evento artístico gratuito. Na frente, ao outro lado da rua, existe também um mercado típico, mais barato e menos industrial, onde se reúnem os artesãos locais. Talvez, o melhor lugar para encontrar alguma recordação da cidade.


Bairro Paris Londres

Como o nome sugere é um bairro elegante, que lembra as mais famosas capitais europeias, tanto na arquitetura quanto no charme de seus cafés e restaurantes. Bom ambiente para caminhadas preguiçosas.


Petri recomenda

- Emporio La Rosa: simplesmente um dos melhores sorvetes do mundo. É o que diz a propaganda e também a opinião de quem o provou. Pode confiar.


Bairros Brasil y Concha y Toro

Manhã invernal na Plaza Concha y Toro - Arquivo do Petri | Fábio Becker
Próximo ao Yungay, fica um dos mais boêmios bairros de Santiago: o "Barrio Brasil". É uma versão mais "adulta" e menos "intensa" do Bella Vista. Para quem busca uma noite agradável de barzinhos ou karaokê - vale a pena visitar pelo menos um bar do gênero - é uma grande pedida. Grudado ao Bairro Brasil, está o minúsculo e encantador Concha y Toro. Menos popular que a famosa vinícola que leva o mesmo nome, passa despercebido até para os moradores locais, mas é um daqueles cantos charmosos e bucólicos para ficar no coração.

Petri recomenda

- Plaza Concha y Toro: um chafariz rodeado por árvores, banquinhos, ruas e construções de pedra. Um pequeno encanto que parece ter sido transportado e ou esquecido de séculos atrás. Normalmente é um espaço completamente pacato, mas em alguns fins de semana recebe eventos com música, artesanato e comida típicos.  


Outros

Palácio de La Moneda, sede da Presidência da República do Chile - Arquivo do Petri | Fábio Becker
Com uma distinção tão marcante entre os bairros, seria necessário uma vida para desbravar os encantos de cada um deles e destacar tudo isso seria por igual uma tarefa impossível. Tentei fugir aqui dos lugares óbvios, mas é certo que os encantos não param por aqui: o Valle Nevado, Palácio de La Moneda, Cajón del Maipo, são apenas alguns dos exemplos, que obrigatoriamente, merecerem uma visita.



Nenhum comentário:

Postar um comentário