Guia de Bairros: Montevidéu além do óbvio

Seguindo a série “Guia de Bairros”, desta vez o Petri te convida a conhecer os 5 bairros mais encantadores e históricos, além dos pontos mais alternativos, da pacata e bela capital uruguaia, Montevidéu

Monumento em homenagem a Artigas | Foto de Fábio Becker

Montevidéu (ou Montevideo) é um velhinho amável e bonachão, sentado à praça ou na rambla frente ao mar com um radinho de pilha sintonizado no jogo do Peñarol ou em alguma milonga, relembrando, entre um gole de mate e outro, as histórias de seus heróis e de seu povo. Que soe raro personificar uma cidade, mas de verdade nada me lembra melhor a capital uruguaia que Pepe ou Galeano, e não falo aqui somente do sentido histórico ou de um sentimento latino, mas realmente da amabilidade de sua gente e da percepção indescritível da tranquilidade –  e por que não: melancolia? –  que paira na cidade.
Apesar de contar com aproximadamente 1,4 milhões de habitantes (quase que metade da população de todo o país),  Montevideo é de uma calma que espanta –  no sentido positivo da palavra. É uma metrópole que, apesar do desenvolvimento constante, mantém viva suas raízes e seu clima de paz litorânea. Nada exprime melhor o espírito da cidade do que uma tarde de outono sentado baixo aos plátanos do Prado ou em um charmoso café da Ciudad Vieja, ou ainda uma caminhada preguiçosa na rambla pela manhã, sentindo a brisa do mar, enquanto os pescadores lançam suas primeiras iscas ao La Plata. Talvez seja, em grande parte, essa percepção de um povo despreocupado, que caminha sem pressa, frente a uma América Latina confusa e uma época de passos largos e estresse cumulativo, que lhe rendeu o título de cidade com maior qualidade de vida do continente.
Para te ajudar a sentir um pouco desse clima e conhecer os principais pontos da cidade, é que o Petri apresenta mais um pequeno "Guia de Bairros": um resumo do melhor que Montevidéu tem a oferecer, com destaque para os contrastes, sempre harmônicos, que esboçam um pouquinho do que é a mais simpática das cidades e a mais tranquila das capitais latino americanas.
O "sítio perdido en el sur", como descreve Tabaré Cardozo, reflete o tranquilo azul celeste da bandeira uruguaia que brada e sussurra histórias ao vento, te convidando para uma caminhada por ruas e vielas cheias de vida, belezas e recordações. Seja bem vindo a terra de Artigas, Pepe, candomblé, milonga, mate, caña, boliches, Galeano, Penãrol e Nacional, de negros, gaúchos, de assado...

GUIA DE BAIRROS DE MONTEVIDÉU
1) Bairro Ciudad Vieja
O churrasco é uma das tradições uruguaias que marcam presença no Mercado do Porto | Foto de Diúlit Oldoni
Ao fim da 18 de Julio (a avenida principal que corta todo o centro da cidade, indo do Parque Batlle até a Plaza Independencia), como que protegida simbolicamente às costas da monumental estátua de Artigas, encontra-se a Puerta de La Ciudadela, único vestígio da muralha que cercava o local nos tempos coloniais. Se da muralha, derrubada após um decreto em 1829, restam poucos vestígios, ultrapassar a Puerta é, perdoem-se os clichês, como entrar em um portal do tempo, tendo uma breve ideia do que era Montevidéu em 1724, ano em que surgiram suas primeiras edificações.
Repleto de monumentos, praças e prédios históricos de estilo neo-clássico espanhol, o bairro conta ainda com ruas fechadas para pedestres, restaurantes, antiquários e feirinhas. Caminhar pela Ciudad Vieja é dos tipos de passeios que não cansam nunca.

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- Mercado del Puerto: é o típico ponto turístico presente em todas as listas e guias, e não poderia ser diferente. Além de histórico e repleto de lojinhas e restaurantes, o mercado público de Montevidéu conta com um clima único: a fumaça das parrilladas, misturada ao burburinho de idiomas de todos os cantos e uma sempre ocasional "música callejera", é mais que um espaço para conhecer a rica culinária platina, é um mergulho na multiculturalidade local. Mas esteja preparado. Se Montevidéu já é uma cidade de custos elevados, no Mercado del Puerto, devido em grande parte a forte presença de turistas, tudo é ainda mais caro. Além dos pratos que costumam não ser nada baratos, muitos lugares cobram taxas como "teto", "ajuda artística" - se algum músico aparecer por lá enquanto você come - e gorjeta, quase duplicando o valor inicial. Se mesmo assim recomendamos um almoço no local? Não tenha dúvida que sim. Economizamos o possível para nos dar esse presente e não nos arrependemos. Nosso prato? Chivito vegetariano. Preço final: sonhar com chivito o resto da vida e  R$160 com bebidas, música e um prato não muito grande para dois.

- Pubs: Logo na primeira viela que corta o passeio público à  esquerda (entrando pela Puerta de la Ciudadela), encontra-se o principal ponto de encontro na noite de Montevidéu. Sendo uma cidade calma, como já citamos, é o lugar ideal para quem busca um pouco de agito. O lugar conta com inúmeros pubs grudados uns nos outros, além de mesas na rua. O melhor é que normalmente nenhum cobra entrada, permitindo que você faça um percorrido por todos os bares e gêneros musicais, sem gastar muito.

2) Bairro Sur
"Perfumado com olor de leyenda". O verso da banda folclórica Los Olimareños, esboça com toda a poesia merecida a importância desse bairro, que fica colado à Ciudad Vieja. Considerado berço do candomblé (ritmo e dança afro-uruguaia onde o tambor é o instrumento principal), mais que o local onde surge muito da cultura de Montevidéu, foi também o bairro preferido de muitos artistas locais como Manolo Guardia, Eduardo Mateo e Rubén Rada. E como complemento dessa aura artística é também o local de falecimento de Carlos Gardel - que obviamente conta com um monumento em sua homenagem.
Quando a cidade começou a expandir-se fora dos limites da Ciudad Vieja, foi nesta região que a comunidade afrodescendente, em sua maioria, começou a viver e manter viva as tradições africanas.  Muito embora, a canção de Los Olimareños melancolicamente anuncie em versos como "Mi viejo Barrio Sur,/triste y sentimental,/ la civilización/te clava su puñal" e "ya no hay risas, ni luz, ni alegría/ y en la calle ruinosa y desierta/ sopla un viento de desolación", a inevitável deteriorização da cultura frente ao avanço da modernidade, caminhar pelas ruas do Barrio Sur é respirar esse ar místico de arte e boêmia.

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- La rambla: talvez não exista experiência mais marcante e tranquilizante que caminhar ou pedalar pela extensão da rambla, até onde os pés permitirem (Petri fez uma caminhada de mais de 20 km, chegando a pé até Pocitos),  observando o mar. Ao fim do porto, onde inicia o Barrio Sur, é também onde inicia esse calçadão que contorna praticamente toda a zona litorânea da cidade. Ao canto, está um daqueles lugarzinhos mágicos, que talvez não chamem a atenção à primeira vista, mas que nos encantam sabe-se lá o porquê. Meu cantinho favorito de Montevidéu é um caminho de concreto que se estende mar adentro até chegar num velho farol, servindo de encontro de pescadores, além de ser um bom lugar para sentir o vento e os respingos de um rio tão bravo que não perde em nada para o mar.  

- Bar Fun Fun: Um dos bares culturais mais antigos e visitados da cidade, o Fun Fun conta com um cardápio completo, música ao vivo e uma ambiente aconchegante. Experiência única é provar a "uvita", uma espécie de cachaça de uva, receita original do local. Recomenda-se reservar sua mesa, pois o local costuma lotar rapidamente.

3) Bairro Pocitos
Praia de Pocitos, no outono | Foto de Diúlit Oldoni
Sabe aquele famoso letreiro de “Montevideo” que você já deve ter visto em mais de uma foto por aí? Pois bem, ele fica em Pocitos, um dos bairros mais nobres da cidade e também sua melhor e mais famosa praia. Além da clássica foto, essa é oportunidade de se banhar em água límpida em dias de calor.

4) Bairro Prado
Jardim Botânico de Montevideo e sua mágica outonal | Foto de Fábio Becker
Se no começo dessa matéria descrevi Montevidéu como um velhinho bonachão e despreocupado, o bairro Padro provavelmente seria o lugar escolhido por este velhinho para morar. Afastado uns 30 min do centro, o bairro é ideal para quem ama caminhar e sentar-se à sombra de árvores para um piquenique. São tantas as opções naturais e as cores - soberbas no outono, quando lá estivemos - que é necessário pelo menos um dia para desfrutar com calma de todos os seus encantos. Só para citar os pontos imperdíveis, aí está o “Jardín Botanico de Montevideo” - na foto acima - com mais de 600 espécies de plantas, o “Rosedal” (um grande jardim com mais de 300 espécies de rosas, que obviamente, deve ficar ainda mais encantador na primavera) e o tranquilo “Jardín Japonés”.

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- Museo Blanes: Junto ao Jardín Japonés, está o “Museo de Bellas Artes Juan Manuel Blanes”. Além de sua arquitetura renascentista e exposições sazonais , o museu guarda os principais quadros de Blanes, obras gigantes - em tamanho, detalhes e importância - que ilustram os pontos mais marcantes da história de Montevidéu.

5) Bairro Centro
Vista do Mirador de La Intendência | Foto de Fábio Becker
Divisa com os citados Barrio Sur e Ciudad Vieja, e muito menos interessante que seus vizinhos, além das comodidades comuns à área central de qualquer cidade (ofertas de restaurantes, mercados, livrarias, caixas eletrônicos...), o bairro Centro conta com cartões postais e pontos de visita que merecem o passeio. Os melhores exemplos são: a romântica "Fuente de los Candados", o “Mirador de La Intendência, prédio com 80 metros de altura e que nos permite uma visão de 360 º de Montevidéu, o  monumento e o “Mausoleu de Artigas”, e por fim, aquele que talvez seja o mais fotografado ponto da cidade, o Palácio Salvo.

Outros
Este "Guia de Bairros" é apenas um esboço das belezas e cultura da grande Montevidéu, em um apanhado de 4 visitas. E assim como a cada nova ida, além de matar a saudade de nossas ruas e cantos favoritos, sempre nos encantamos com uma nova descoberta, seria, portanto, tarefa presunçosa e impossível tentar abarcar toda a essência da cidade aqui. Além de todas as atrações citadas, ainda destaco, por exemplo, o Estádio Centenário, um dos mais importantes e tradicionais palcos do futebol mundial, o encantador Teatro Solís fundado em 1856, e a tradicional "Feria de Tristán Narvaja", que com seus 107 anos é um passeio indispensável para quem tem a possibilidade de passar uma manhã de sol dominical em Montevidéu.


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DICAS
- Câmbio: Uma boa cotação para moeda uruguaia é acima de 8,5 pesos por real. A melhor cotação, geralmente, é na cidade de Chuy, na fronteira. Mas é fácil encontrar boas cotações também em Montevidéu. As principais casas de câmbio estão ao longo da Avenida 18 de Julio.

- Acomodações: Pela distribuição geográfica, segurança e facilidade de acesso tanto à pontos de visitação, quanto a serviços essenciais como restaurantes, mercados, pontos de ônibus, entre outros, recomendamos ficar na região que engloba os Bairros Sur, Ciudad Vieja e Centro. Os hostels custam na faixa de R$ 40 e R$ 50.



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